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Pessoas

por MC, em 27.01.17

A menina Isabelinha deu os primeiros passinhos hesitantes e apertou contra o peito o roupão farfalhudo de pequenos ursinhos lilases. Havia um ror de dias que não saía da cama senão para fazer um chá ou aquecer um caldinho. Soltou uma tosse funda e cavernosa que lhe escavou ainda mais o rasgo doloroso dentro do peito. Agarrou na caneca fumegante com as mãos em concha e caminhou devagar até à janela.

A chuva parara ao fim do dia e a rua recomeçava lentamente a mexer-se. A menina Isabelinha olhou lá para fora através dos quadrados envidraçados da velhinha janela de guilhotina e sorriu, agradada. Sentou-se na sua senhorinha de veludo cor de salmão e pousou a caneca no parapeito. Contemplou a rua com a propriedade de uma rainha a perscrutar os seus domínios. Por muito que pensasse, a menina Isabelinha não conseguia indicar um local no mundo inteirinho onde se sentisse melhor do que ali, sentadinha à janela, a observar as gentes do seu bairro.

A menina Isabelinha adora pessoas. A-do-ra. Mas não é assim um gostar mesmo ‘gostar’. Não é um ‘gostar’ – digamos - bonito, daqueles que transbordam de calor humano e que nos dão ímpetos fraternos de abraçar o próximo. Não é. A bem da verdade, contam-se pelos dedos de uma mão – talvez até sobrem alguns - as pessoas de quem a menina Isabelinha gosta assim, mesmo – mesmo, com o âmago a transbordar de afeição.

É mais um ‘gostar’ científico, empírico, de investigador curioso a observar o habitat natural de uma qualquer espécie exótica e estúrdia, num documentário da National Geographic. A menina Isabelinha vive perpetuamente fascinada pela natureza humana e os seus mistérios.

Dá por si a analisar, com os desvelos meticulosos de um doutorando, a forma como a D. Paulina dos correios desfila no passeio, de braço bem apertado com o bonitão do seu marido, lançando às empregadas do quiosque olhadelas fulminantes de soberba e intimidação. Deixa-a perpetuamente embaçada de perplexidade que a D. Paulina não atente, nem uma única vez, no olhar de silencioso assentimento que o seu Tó Zé troca com a ruiva vistosa do bar da travessa de cima, que com eles se cruza amiúde a caminho do trabalho.

Logo depois, saracoteia-se no passeio a Sra. D. Matilde, de salto alto na calçada portuguesa, cauda de raposa afogueada na gola do sobretudo camel, os dedos de um cor-de-rosa translúcido a segurar, delicados, a trelinha do Ricky Martin, o seu pequenino e raríssimo Skye Terrier, que o Sr. Coronel mandou vir da Escócia especialmente para ela por alturas do seu aniversário. É uma senhora muito requintada, a Sra. D. Matilde. Sai sempre à rua perfeitamente penteada e maquilhada, sem quaisquer vestígios dos frequentes hematomas que a vizinhança vislumbra quando, logo pela fresca, assoma à varanda ainda de roupão, para se assegurar de que o Sr. Coronel se desloca sem imprevistos a caminho do quartel. É muito boa pessoa, a Sra. D. Matilde – diz a menina Isabelinha de si para si - pena ser tão distraída, tão atreita a acidentes domésticos.

Assomam agora ao fundo da rua as mocinhas da fábrica dos sabonetes que despegaram às seis. Vão ao jardim do chafariz tirar selfies bonitas, emolduradas pelas flores delicadas dos sabugueiros, para semear nas redes sociais a nostalgia dos lugares improváveis, sabe-o bem a menina Isabelinha.

Os lábios abrem-se-lhe num sorriso satisfeito. Deixa-se ficar ali, aconchegada, eterna refém daquele perverso fascínio, consoladinha como um gato ao borralho.

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publicado às 22:35

Então e que tal esse 2017?

por MC, em 03.01.17

mona lisa cold.jpg

 

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publicado às 21:17


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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